Nessa guerra de inteligência com os eletrodomésticos
Dave Barry
Há pouco tempo vi um artigo no jornal explicando como os fabricantes deeletrodomésticos pretendem nos levar à loucura.
Claro que eles não dizem que querem nos levar à loucura. O que dizem é que querem que moremos em casas onde "todos os aparelhos estejam conectados à Internet, partilhando informações" e sejam "mais inteligentes do que a maioria de seus donos". Segundo o artigo, por exemplo, você teria uma casa em que a máquina de lavar louça "pode ser ligada do escritório", a geladeira "sabe quando está faltando leite" e a balança do banheiro "transmite seu peso à academia de ginástica".
Francamente, com todo o respeito, eu me pergunto se os fabricantes de aparelhos andaram usando drogas. Quero dizer: algum dia já pararam para se perguntar por que um consumidor, depois de colocar a louça na máquina, iria ao escritório para liga-la? Haveria nisso algum benefício para sua carreira?
CHEFE: O que você está fazendo?
VOCÊ: ( no computador): Estou ligando minha lava-louça!
CHEFE: É esse tipo de produtividade que estamos precisando aqui!
VOCÊ: Agora estou dando descarga na privada!
Ouçam, fabricantes de aparelhos: não precisamos de uma lavadora de louça com que possamos nos comunicar a distância. Se quiserem melhorar nossas lava-louças, dêem-nos uma que perceba quando as pessoas deixam pratos usados na pia da cozinha e grite: "Ponha esses pratos na lavadora de louça agora, senão vou começar a vazar nos seus sapatos!"
Da mesma forma, não precisamos de uma geladeira que saiba quando está faltando leite. Já temos um sistema infalível para obter essa informação: perguntamos à nossa mulher. O que poderíamos ter seria uma geladeira que se recusasse a abrir a porta quando sentisse que estamos prestes a consumir nossa quarta porção de pudim em duas horas.
E quanto a uma balança que transmita nosso peso à academia? Estão malucos? Não queremos que nosso peso seja transmitido nem mesmo a nossos próprios olhos! E se a academia enviasse essa informação a todos os outros aparelhos conectados à Internet? E - que Deus nos livre! - se a geladeira descobrisse quanto pesamos? Nunca mais conseguiríamos abrir aquela porta!
Mas eis o que de fato me preocupa nesses novos aparelhos" inteligentes": mesmo que apreciemos seus recursos, não poderemos usá-los. Não conseguimos usar nem as funções que já temos! Possuo um telefone com 43 teclas, pelo menos 20 das quais tenho medo até de tocar. É provável que esse aparelho possa comunicar-se até com mortos, mas não sei como fazê-lo funcionar, assim como não sei usar todos os recursos do meu aparelho de TV, que tem funções saindo pelo ladrão e necessita de três controles remotos. Um deles (44 teclas) veio com a TV; um segundo (39 teclas) acompanha o vídeo-cassete; o terceiro (37 teclas) foi trazido pelo homem da TV a cabo, que parece ter achado que eu não tinha teclas suficientes.
Assim, quando quero assistir a TV, enfrento um total de 120 teclas, identificadas por siglas e nomes que nada explicam. Há três teclas POWER, mas em algumas ocasiões- principalmente quando meu filho e os amigos, que não têm medo desses recursos, mudam a configuração - nem consigo ligar a TV.
Fico ali parado três controles remotos, apertando todos os botões, até que afinal desisto e vou ligar a lava-louças. Há anos não consigo gravar um programa de TV. É esse o tipo de "inteligência" adquirida por meus aparelhos. E agora os fabricantes querem nos dar mais funções. Sabe o que isso significa? Que uma noite dessas você vai abrir a geladeira "inteligente", procurando uma cerveja, e vai ouvir uma gravação animada — na mesma voz da mulher que lhe diz que "Seu telefonema é muito importante para nós", quando você liga para uma empresa que não quer falar com você pessoalmente - dizendo: "Seu aipo está mole." Você não vai saber como sua geladeira sabe disso e, o que é pior, a quem mais ela andou contando isso.
Mas, se quiser fazer a geladeira parar, terá de decifrar um manual escrito por físicos nucleares. (para desligar a função Monitorização do Frescor de Vegetais, entre no modo Comando, selecione a função Editar, depois selecione Trocar Padrão de Vegetais, e então suponha que o Trem A parte da estação viajando rumo oeste a 75 Km/h, enquanto o trem B....") Será esse o tipo de futuro que desejam, consumidores? Querem aparelhos mais espertos? Claro que não.
Seus aparelhos devem ser menos inteligentes do que você, assim como a mobília e representantes no Congresso. Portanto, eu lhes aconselho deixar que a indústria de eletrodomésticos saiba que, quando se trata de aparelhos "inteligentes", seu voto é NÃO. Mas é preciso agir depressa. Porque,enquanto você está lendo este texto seu microondas está votando SIM.

